"Aterroriza-me o que sou para vós; consola-me o que sou convosco. Pois para vós sou bispo; convosco sou cristão"

Palavra do Bispo

Palavra do Bispo


O SENTIDO EXISTENCIAL E SAGRADO DE UMA ROMARIA

Para o Homem cuja realidade é irremediavelmente cindida entre o finito e o infinito, entre o bem e o mal, entre a vida e a morte, entre o castigo e a graça, entre o que é e o que deveria ser, a religião aparece como o amálgama entre criatura e criador, restabelecendo a ordem, a harmonia e a esperança na transcendência da vida. Para o romeiro a religião é lamento e recusa a um mundo tão desigual.

A maior característica de uma Romaria católica é a atitude penitencial, a busca de conversão do peregrino. Há diversas passagens bíblicas que mostram esta atitude piedosa dos fiéis, e as Romarias ligadas à devoção a Nossa Senhora Aparecida também não fogem deste foco. Inclusive, o lema do Santuário de Aparecida é: “Façam o que Ele mandar” (Jo 2,5). A Romaria, como “sinal maior de devoção”, nos leva a entender que Nossa Senhora nos acolhe e nos conduz a Jesus Salvador e Redentor. De modo que é ela é, antes de tudo, uma atitude de fé. O romeiro reconhecendo seus limites e fraquezas vai ao Santuário para pedir ou agradecer, na certeza de que na luta do dia a dia, ele não está sozinho; ele reza com profunda emoção a um Deus que se faz presente em meio às batalhas travadas em seu cotidiano numa atitude de fé afetiva; é um sentimento que parte das profundezas do coração, muitas vezes não entendida se avaliada somente á luz da razão: há razão no romeiro que a própria razão desconhece: o homem inteiro se faz presente na romaria: sua fé, seu cansaço e desanimo, seu emocional. O Romeiro segue com uma postura que faz memória dos avós, dos pais, dos padrinhos e madrinhas, dos antepassados que vinham ao Santuário e voltavam para a dureza da vida, contando muitas coisas bonitas e boas que invadiam a sua conduta de desafiar tantas dificuldades do cotidiano. No Santuário, ele se encontra com a sua história presente é passada e retorna para prosseguir destemidamente seu ideal de futuro. A ‘Romaria’ , portanto, é uma postura de sair de si mesmo: ‘deixar o mundo egoísta do eu’ e fazer a experiência do Comunitário e do transcendente.

Os romeiros tomam a direção do Santuário para fazer memória, agradecer e pedir, sobretudo pela saúde. Uma saúde integral: corpo, alma, inteligência e emoção. Enquanto ele peregrina, anima a própria fé, pede graças, agradece pelos dons recebidos, louva a Deus e, principalmente, recorda que a vida é um constante caminhar até o destino final, a Jerusalém Celeste. Quem faz peregrinações “reza” com os pés e experimenta com todos os sentidos que a sua vida é um grande caminho para Deus. Retorna feliz, trazendo consigo a convicção que o fortalece para o desafio do cotidiano de que não caminha sozinho. Sob as benção e as graças, resgata os sonhos e a ousadia.

Portanto, o peregrinar do Romeiro não é simplesmente um caminhar na direção de um determinado Santuário. Este ato é realizado, buscando o próprio sentido de sua existência, como uma viagem interior. Os romeiros, por exemplo, dirigem-se para o Santuário Nacional de Aparecida catedral, procurando chegar diante da Imagem encontrada no Rio Paraíba do Sul e, diante dela rezar uma ave maria na intenção extraída do seu dia a dia cheio de turbulência e insegurança; retornando por um sentimento de confiança e ousadia resgatados frente aos inúmeros desencantos.

Dom Nelson Francelino Ferreira
Bispo Diocesano